“Leva-me contigo. Quero um amor condenado. Quero ruas à noite, vento e chuva, ninguém a saber onde estou.”
“Quantas vezes, depois disso, ela se perguntara o que poderia ter acontecido se tivesse tentado continuar com ele, se tivesse retribuído o beijo de Richard (…), partido com ele para qualquer lado (…). Não poderiam ter descoberto alguma coisa…maior e mais estranha do que aquilo que tinham? É impossível não imaginar esse outro futuro recusado (…). Ela poderia, pensa, ter entrado noutro mundo. Podia ter tido uma vida tão intensa e perigosa como a própria literatura. (…) Aventura-te mais no amor (…). Mesmo assim, há o sentimento de oportunidade perdida. Talvez nunca haja nada que possa igualar a recordação de terem sido jovens juntos. Talvez seja tão simples como isso (…). Parecera o começo da felicidade, e às vezes, passados mais de trinta anos, ela ainda se sente chocada ao dar-se conta de que foi felicidade, de que toda a experiência se encontra num beijo e num passeio, na previsão de um jantar ou de um livro. O jantar foi, entretanto, esquecido (…). O que continua a viver, intacto, na memória de Clarissa, decorridas mais de três décadas, é um beijo no crepúsculo, num retalho de erva seca, e um passeio à volta de uma lagoa, enquanto zumbiam mosquitos no ar que escurecia. Ainda permanece essa perfeição singular, e é perfeição, em parte, porque pareceu, na altura, prometer tão claramente mais. Ela sabe agora: esse foi o momento, exactamente esse. Não houve nenhum outro. “
“Sim (…), já é tempo de o dia acabar. Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo, apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que quer que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos: um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença, ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras muito mais negras e difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.
Só Deus sabe porque amamos tanto isso.”
Michael Cunningham, As Horas
Sem comentários:
Enviar um comentário