Há dias

Há dias em que a alma nos rói os ossos e em que as pessoas são feras e os minutos são punhais.
Dias em que o mar tem fogo
Dias que não existem
MUDO TUDO
Abrigo-me de ti de mim
 não sei há dias em que fujo e que me evado
há horas em que a raiva não sequei n
em a inveja rasguei ou a desfaço
Há dias em que nego e outros onde nasço
há dias só de fogo e outros tão rasgados
Aqueles onde habito com tantos dias vagos.

(Abrigo - Maria Teresa Horta)

In and out of love

A Ema adorou... Voz poderosa...
Armin van Buuren ft. Sharon den Adel - In And Out of Love
See the mirror in your eyes
See the truth behind your lies
Your lies are haunting me
See the reason in your eyes
Giving answer to the why
Your eyes are haunting me
Falling in and out of love in love, in love
Falling in and out of love your love, your love
See the mirror in your eyes see the truth behind your lies
Your lies are haunting me see the reason in your eyes
Giving answer to the why
Your eyes are haunting me
Falling in and out of love in love, in love
Falling in and out of love your love, your love in love in love in love Why can't you see it?
Why can't you feel?
In and out of love each time
Why can't you feel it?
Why can't you see it?
In and out of love
You keep keep runnin' I keep keep fallin'
Let it fade away. Away away away away
Oh let it fade away

De noite


Quando fecho os olhos, sinto as respirações doces que se espalham pelo resto da casa: a Ema, o pai dela, o meu cão…
Nessa altura, oiço os ruídos da cidade, o meigo e lento caminhar do verão que se aproxima, quente como um feitiço, o cheiro das flores e da noite, vozes lá de fora que cá só chegam em eco.
Então atacam-me medos infundados de fados e desgraças. Receios insustentáveis de infortúnio e de perdas. Tão grandes que não os escrevo aqui, não vão as letras formar palavras que a mão que embala o berço dos nossos destinos possa ouvir.
Nessa altura fico muda e quieta, muito quietinha, debaixo dos lençóis. Estendo mentalmente os meus braços, as minhas pernas e as minhas asas protectoras sobre quem dorme por perto, esperando que a dor nunca contemple os seus rostos.

Clã - amigos de quem

Lá voltaste a puxar para ti o lençol
Como que a privar meus sonhos do último raio de sol
Amigos são sobras do tempo
Que enrolam seu tempo à espera de ver
O que não existe acontecer
Mas teimas em riscar o fim do meu chão
Nunca medes a distância
Dos passos à razão
Meus votos são claros na forma
Desejo-te o mesmo que guardo p'ra mim
E o que não existe não tem fim
É só dizer e volto a mergulhar
Voltar a ler não é morrer é procurar
Não vai doer mais do que andar assim a fugir
Deixa-te entrar para tentar ou destruir
Mas quem te ouviu falar
Pensou tudo vai bem
Só que alguém vestiu a pele
Que nunca serve a ninguém
E a dúvida está do meu lado
  Mas eu não consigo olhá-la e achar
Ser esse o lado em que ela deve estar
Erguemos um grande castelo
Mas não nos lembramos bem para quê
E é essa a verdade que se vê
É só dizer e volto a mergulhar
Voltar a ler não é morrer é procurar
Não vai doer mais do que andar assim a fugir
Deixa-te entrar para tentar ou destruir
Mas sem fingir
Sem fingir
Sem desistir

Confidência


(Porque hoje é um dia especial para o nosso amor)
Diz o meu nome pronuncia-o como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos sou gesto e cor e dentro de ti me recolho ferido
exausto dos combates em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável procura o interior
 e o avesso da aparência
porque o tempo em que vivo morre de ser ontem
e é urgente inventar outra maneira de navegar
outro rumo
outro pulsar para dar esperança aos portos que aguardam pensativos

No húmido centro da noite diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça e me sobressalte
quando suavemente pronunciares o meu nome

Mia Couto

Dorme meu amor


Dorme, meu amor,
que o mundo já viu morrer mais este dia
e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou;
e a minha mão desvia os passos do medo.
Dorme, meu amor a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres.

Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me
eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo.
Fecha os olhos agora e sossega a porta está trancada;
e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho.
Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas:
eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão,
já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
 de guarda aos pesadelos a noite é um poema que conheço de cor
e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira