Viver...


"Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora."

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Fernando Pessoas)
Para a minha irmã P. pelos seus vinte aninhos. ..
Imgem: quadro de Gustav Klimt- "The tree of life"

Se não estivesses

Se não estivesses, se a concha dos teus dedos não fizesse vibrar em mim, gota a gota, a tua voz, se não esticasses os braços sobre um qualquer espaço que nunca será nosso, se o teu sorriso agora distendido não se mostrasse todo nos gestos do amor, se a tua mão não procurasse a minha, ou os meus dedos não pudessem, ainda que ao de leve, tocar a ponta frágil dos teus cabelos escuros, se eu não encontrasse em ti o meu olhar, às vezes, quando finjo que não vejo o teu olhar em mim, se os dias não fossem confortados com a ideia de que existes sensivelmente existes, e que, por isso, de alguma forma, eu sou em ti a minha forma de existir - estas palavras, as frases que as expõem, o poema em que tudo se articula, no íntimo sentido que só existe dentro do poema, tudo o que é e, ainda, o que possa caber em nós, secretamente, seria uma triste passagem pelo que resta e nem os meus olhos, e nem as minhas lágrimas diriam o que dizem; porque a mão que escreve, o seu último argumento, está na concha dos teus dedos e no gemido que atraiçoa a tua voz.

António Mega Ferreira (Escritor e Jornalista português, 1949- )