São Leonardo da Galafura

lugares assim. Que se nos prendem à alma Já vi este lugar ao nascer do sol. Já vi este lugar ao pôr-do-sol. Já o vi triste, alegre, desiludida, eufórica, deprimida, extasiada, apaixonada, ébria, sóbria… E este lugar sempre permaneceu o mesmo: imensamente belo. Eterno. Imortal. Com cheiro a paz, mosto, maturidade, em estado puro, supremo, celestial. Este lugar sempre surgiu aos meus olhos no seu estado mais natural e verdadeiro. Beleza absurda e absoluta, excessiva. O rio a espelhar todas as angústias, alegrias e momentos da condição humana. Tenho que te levar lá, Ema.

"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta."
Miguel Torga, Diário XII


São Leonardo da Galafura
À proa dum navio de penedos,
  A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!


Miguel Torga

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