Natal



Acontecia.
 No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda. Uma festa.
 Palavras a saltar.
(...)
Na tua boca. No teu rosto.
 No teu corpo acontecia.
No ritmo dos teus ritos.
No teu sono. Nos teus gestos.
Nos teus gritos.
 Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos.
Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.
(...)
Natal, natal, diziam. E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.
Manuel Alegre

"Canção para a minha filha Isabel adormecer quando tiver medo do escuro"

Nem sombra nem luz
nem sopro de estrelas
nem corpinhos nus
de anjos à janela
nem asas de pombos
nem algas no fundo
nem olhos redondos
espantados do mundo
nem vozes na ilha
nem chuva lá fora
dorme, minha filha,
que eu não vou embora.
António Lobo Antunes

Amanhã

"Estar contigo ao acordar, ver como se abrem as tuas pálpebras, cortinas corridas sobre o sonho, sacudir dos teus lábios o silêncio da noite para que um primeiro riso me traga o dia.
Assim, amor, reconheço a vida que entra contigo pela casa, escancara janelas e portas, deixa ouvir os pássaros e o vento fresco da manhã, até que voltas para mim, e tudo recomeça. "


Nuno Júdice (Para o pai da Ema, o meu amor)