Se não estivesses

Se não estivesses, se a concha dos teus dedos não fizesse vibrar em mim, gota a gota, a tua voz, se não esticasses os braços sobre um qualquer espaço que nunca será nosso, se o teu sorriso agora distendido não se mostrasse todo nos gestos do amor, se a tua mão não procurasse a minha, ou os meus dedos não pudessem, ainda que ao de leve, tocar a ponta frágil dos teus cabelos escuros, se eu não encontrasse em ti o meu olhar, às vezes, quando finjo que não vejo o teu olhar em mim, se os dias não fossem confortados com a ideia de que existes sensivelmente existes, e que, por isso, de alguma forma, eu sou em ti a minha forma de existir - estas palavras, as frases que as expõem, o poema em que tudo se articula, no íntimo sentido que só existe dentro do poema, tudo o que é e, ainda, o que possa caber em nós, secretamente, seria uma triste passagem pelo que resta e nem os meus olhos, e nem as minhas lágrimas diriam o que dizem; porque a mão que escreve, o seu último argumento, está na concha dos teus dedos e no gemido que atraiçoa a tua voz.

António Mega Ferreira (Escritor e Jornalista português, 1949- )

1 comentário:

Carla disse...

não conhecia e adorei ler
a foto está fabulosa
beijos e bom fds