canção de embalar

"No teu passo suave e quase alado deixaste-me com a tua voz que tece em solidão e madrugadas o meu estar, tu, que acaso em voo desatado vais sem medo além da dor da carne em sangue a deslaçar-se, dá-me a tua mão para ninar a noite com palavras ternas e secretas que encantam o silêncio povoado por novas dum espaço que em vida se medita, com suas paisagens que se alargam no olvido arborizadas, diz-me que sonho trará de volta tua alma e corpo intactos por mais que ardam os fogos na noite, corram a lua e os astros todos desfraldados em palidez numa demanda tua, noite cega com o dia agrilhoado na cintura, noite em que não vens com teu passo suave e alado aninhar no meu o teu corpo, enseada desenhando-se na penumbra, molhar com uma palavra os lábios onde outra dos nossos nomes nascia (olhar-te nos olhos de um azul como só há no céu pelas manhãs claras de querer-te muito), mais que neve ou a espuma das ondas a marulhar em nossas bocas, quando todo tu eras beijo demorado e a face iluminava-se num convite à partida para o longe que nunca nos doía, ambas as mãos no volante pousadas, porque desamado fui eu em tua dor, canta para embalares com a tua guitarra a noite e o sono irreparáveis."


Paulo Teixeira In Autobiografia Cautelar, Gótica, 2001

1 comentário:

Carla disse...

linda a ternura que aqaui se encontra
beijos