Um dia de chuva

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem, cada um como é." Alberto Caeiro
"Eram dias de chuva e tempestade, aqueles, mas ainda assim tinham o seu encanto. A sala estava triste e acolhedora. A chuva e o frio lá fora tornavam-na mais amigável. As folhas amarelas e vermelhas ardiam, reluziam febrilmente no cinzento enevoado da paisagem. As folhas das cerejeiras eram de um vermelho de fogo, de ferida e dor, mas eram belas, e por isso traziam uma alegria reconciliadora. Muitas vezes as árvores e os campos pareciam cobertos por véus e lençóis de água, acima e abaixo, ao longe e ao perto, tudo era cinzento e molhado. Atravessar aquela paisagem era como caminhar por um sonho turvo. E, porém, este tempo e esta espécie de mundo eram uma expressão de uma serenidade secreta. Cheirava-se as árvores ao passar por elas, ouvia-se os frutos maduros que caíam nos campos e pelo caminho. Tudo parecia mergulhado num silêncio duas e três vezes maior. Os ruídos pareciam dormir ou ter medo do seu som. Cedo pela manhã ou à noitinha ressoava sobre o lago o silvo arrastado das sereias de nevoeiro que avisavam os barcos lá fora. Pareciam os ganidos de animais desamparados. Sim, havia bastante nevoeiro. Pelo meio surgia um ou outro dia bonito. E havia também dias, dias exemplares de Outono, que não eram bonitos nem feios, nem particularmente amigáveis nem particularmente tristes, nem soalheiros nem sombrios, antes dias que se mantinham igualmente claros e escuros de manhã à noite, em que a imagem do mundo era a mesma às quatro da tarde ou às onze da manhã, em que tudo permanecia tranquilo e ouro velho e um pouco aflito, em que as cores se recolhiam e sonhavam para si mesmas." Robert Walser, O Ajudante, 2006 Belos os dias em que chove lá fora e estou aninhada nos vossos braços... (Mais uma foto tirada pelo pai da Ema)

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